Sentado à mesa, na companhia de cartas de jogar já comidas pelo tempo e de uma garrafa de wisky. Assim estava eu sentado à mesa na companhia daquelas duas preciosas amigas. Num cinzeiro jaziam incontávei beatas de cigarro, todos cobertos de cinzas dos queimados e destroçados amigos, companheiros do mesmo maço de Marlboro. Apenas um, o único ainda sobrevivente permanecia quieto, ardendo lentamente enquanto eu olhava pela janela, naquele fim da tarde que teimava em não terminar. Dei um último bafo, e matei o resto do cigarro contra o vidro frio do cinzeiro enquanto os vizinhos do primeiro andar gritavam fazia cerca de hora e meia. Eram 19:30, e já se sentia no ar o cheiro das donas de casa na cozinha. E eu ali: sem saber o que fazer ou para onde olhar. Á porta de casa, uma mala de viagem cheia de estampados permanecia imóvel. Um papel em cima da mesa da cozinha, um comando de televisão no chão, e o silêncio inexistente da cidade. Deixara-me. Ali impávido e sereno. Senti montes de lágrimas virgens a rolarem pela minha cara e por fim, a jogarem-se à ravina que existia entre o meu queixo e o chão, acabando esborrachadas contra o soalho de madeira. Ela deixara-me. E adivinhem? Não me importo. Não me importo porque sei o quanto custa amar outro. Importo-me porque sei que não valia um pequeno tostão de cobre. Importo-me, porque me deixei de importar com ela, mas a verdade é que me fazia falta companhia.
Enfiei-me na casa de banho e despi-me. Enquanto vi as roupas a cairem no chão reparei que algo metálico cintilava contra os meus olhos. Uma lâmina de barbear que me sorria. De facto tinha a barba por cortar, mas não passava disso. Era apenas barba e daí? Fazia parte de mim.
Abri as torneiras e deixei a banheira encher de água, enquanto o fumo saia e cantava no ar. Deitei-me na banheira e senti todo o meu corpo: pés, pernas, verilhas e o sexo, as coxas, abdómen, peito e pescoço. Ensaboei-me e peguei na lâmina de barbear e deixei ela bailar nos meus braços e no meu pescoço. Dançava tão apressadamente que acabei assim deitado na banheira, com as veias secas. A água, de um tom tão cristalino não se moveu mais. O meu corpo jazia ali estendido.
Por fim acordei. Ali estava ela ao meu lado...

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